O Partido Nacional-Socialista no Brasil (PARTE II)

Desfile integralista. A frente, lideres como Gustavo Barroso, Plínio Salgado e Reale

Por André Marques

Muito comum hoje em dia os profissionais da história colocarem o Integralismo e Nacional-Socialismo como "a mesma coisa". Porém, engana-se. Apesar de haver mais pontos em comum do que divergências, essas poucas diferenças eram suficientemente gritantes para manter dois movimentos concordantes, porém separados.

Nacionais socialistas (Alemães) x Integralistas (nativistas)

A relação entre Nacional-Socialistas e a Ação Integralista Brasileira (AIB), de Plínio Salgado, com suas camisas verdes e seu "anauê!" foi tal que: o integralismo pode ser visto como importante característica do "fascismo tropical" por ser algo extraordinário que não estava nos planos originais da organização do partido no Brasil. O canto de sereia integralista era doce: "Se tu fosses alemão serias Nacional-Socialista. És brasileiro, inscreve-te, portanto, nas Legiões Integralistas e vem vestir a camisa verde dos que se batem pelo bem do Brasil". 

Só que, enquanto a AIB, como movimento nacionalista, não concordava com o nacionalismo alemão (embora, com fins de propaganda, se apresentasse como a solução viável para a materialização do "Deutschtum tropical"), o partido não queria a assimilação da comunidade alemã no Brasil. Caracterizando-o pejorativamente como nativista, o NSDAP era totalmente contrário a que os alemães e seus descendentes se filiassem à AIB, pois se achava que isso iria afetar a germanização do Brasil.

Sob a visão do III Reich, o integralismo destacava principalmente a questão racial e cultural. O governo nazista chamava isso de "lusitanização", encarada como ameaça ao Deutschtum

Visto com desprezo pelos alemães de Berlim, o integralismo tornou-se um anátema após a patética tentativa de golpe contra Vargas, em 1938, com a suspeita de participação de nazistas brasileiros. Além de desobediência aos ditames da Alemanha, o putsch tupiniquim também deixava o Estado alemão numa saia-justa indesejável com o governo brasileiro, ao qual procurava, sem sucesso, agradar, mesmo ciente de que Oswaldo Aranha era o chanceler de Getúlio. 

Nos tempos "mais altos", a década de 1930, as associações e grêmios que promoviam variados tipos de aglomeração dentro das comunidades germânicas no Brasil era comum e livre. Isso durou até a passagem de lado do Brasil de Vargas para o lado estadunidense.

Este preferia virar o jogo em favor dos Estados Unidos, que considerava parceiros mais valiosos do que a Alemanha, embora, nos anos 1930, o comércio entre alemães e brasileiros fosse o dobro do feito com os ianques. Plínio Salgado, de pedra no sapato do ditador brasileiro, virou pedregulho nas botas de Hitler por um erro de cálculo de Berlim. Por conta da obrigatoriedade da aceitação da cultura germânica como "mãe" para aqueles descendentes de europeus que quisessem aderir ao partido (o que não podia ser mais coerente, vendo de uma forma externa) ,este perdeu uma de suas maiores forças no Sul, onde a comunidade alemã mais expressiva era de teuto-brasileiros porém, junto a várias outras nacionalidades além dos brasileiros.


Moças da juventude integralista. A filiação também tinha um cunho familiar.

Assim, houve uma reação ao nazismo segregacionista, líderes não foram aceitos e o integralismo se tornou a "opção viável". O movimento conservador, direitista e nacionalista de Salgado atendia ao que os alemães nascidos no Brasil até em parte se "dividiam", mas eram aliados pela Vaterland.

Diante do imbróglio que envolvia nazistas e integralistas, Vargas pôde, sem problemas, colocar várias organizações na clandestinidade, inclusive a célula do NSDAP no país. Afinal, entre 1938 e 1942, dentro do projeto de nacionalização do Brasil almejado por Vargas, o alemão passa de perigo ideológico, pela divulgação do ideário nazista, para perigo étnico, como alienígena ao "Homem Novo" que se desejava construir. Com a entrada do Brasil, na Segunda Guerra Mundial, em 1942, ao lado dos Aliados, o perigo vira "militar e ideológico". 


Integralistas no centro de São paulo, década de 30

Vargas estava com o melhor dos mundos políticos graças à inabilidade de nazistas e integralistas frente a essa situação. Dessa forma, não precisava mais se preocupar com indivíduos que apoiassem Hitler, e não a ele. Ao mesmo tempo, pôde canalizar a seu favor toda a demanda autoritária, xenófoba e nacionalista desses grupos. Bastava fazer com que se sentissem vinculados ao Estado Novo, e não ao III Reich. Lá estava, para todos, um chefe “pai da nação”, anticomunista, adepto da ordem, do progresso e das massas.

O mesmo ocorreu entre a Itália de Mussolini e a AIB. “A ação fascista, que de início apoiou Salgado, foi muito útil à direita nacional ao popularizar as idéias autoritárias e estimular muitas pessoas a uma maior simpatia em relação ao Estado Novo.

Os fascistas, melhores políticos do que os germânicos, por um longo tempo fizeram um jogo duplo com Vargas e seus inimigos, os integralistas, apostando em ganhar em quem vencesse no futuro. Como o que houve com os nazistas brasileiros, foram os filhos de imigrantes italianos que optaram pelo apoio total à AIB, ao contrário de seus pais ou avós, italianos natos, que eram fascistas à Mussolini. Também, como no caso alemão, havia uma preocupação étnica implicada no apoio ao movimento de Salgado e, após 1938, um total descrédito na capacidade revolucionária dos integralistas. A italianidade falava mais alto, como a germanidade. Aqui Salgado deu-se melhor, pois antes de ser esquecido recebeu grandes somas de dinheiro vindas de Roma. Curiosamente, a poderosa burguesia paulistana, fervorosa apoiadora do fascismo italiano, fechou seus cofres ao integralismo.

A célula partidária de Santa Cruz do Sul

Membros da célula de Santa Cruz em frente a sua sede

A Santa Cruz da década de 1930 tinha pouco mais de 50 mil habitantes e nenhuma rua calçada. Apenas cinco mil viviam na parte mais desenvolvida da cidade. Dois jornais eram responsáveis por trazer notícias diretamente da Alemanha: o Volksstimme e o Kolonie. Pelo rádio também era possível acompanhar os discursos dos líderes alemães. Em 1933, mesmo ano que Hitler assume o poder, nasce uma célula do Partido Nazista na cidade.

Em um prédio na Rua Tenente Coronel Brito, entre a Júlio de Castilhos e 28 de Setembro, ficava a Deutsh Haus - em português, Casa Alemã - um ponto de encontro dos filiados do Partido Nazi e simpatizantes. De acordo com a numeração da época, a Casa Alemã ficava onde hoje funciona a padaria Jamaica, ou em um dos prédios ao lado. Os encontros eram públicos e abertos a quem compartilhasse da ideologia. Na Deutsh Haus, os visitantes reuniam-se para conferenciar, escutar as lideranças pelo rádio, assistir a filmes e entoar cânticos. 


Dentre os membros do Partido na cidade estavam: Oskar Agte, nascido em 1897 na Alemanha, chefe da célula nacional socialista de Santa Cruz; Paulo Ellwanger, alemão, técnico em eletricidade da Usina Elétrica de Santa Cruz, chefiava a Frente Alemã do Trabalho; Walter Schreiner, nascido em 1909 em Santa Cruz do Sul, graduado em engenharia mecânica na Alemanha; Ernesto Germano Becker, comerciante natural de Porto Alegre, vice-cônsul honorário da Alemanha em Santa Cruz; e Paulo Erath, alemão que trabalhava no setor moveleiro. 


Na década de 1990, Walter Schreiner concedeu uma entrevista para a revista Agora, na qual negou veementemente sua ligação com o Partido. Entretanto, há registros e textos assinados por ele no antigo jornal Kolonie que comprovam sua participação como membro do partido. 

Em frente ao que hoje é o Restaurante Centenário existia, na época, uma loja de cristais. Ela pertencia ao primo de Germano Becker, integrante do grupo nazi e também nomeado, na década de 1930, como vice-cônsul do vice-consulado da Alemanha instalado em Santa Cruz do Sul.

Jornal Kolonie (Colônia)

A propaganda Nazi foi pioneira na história da política com a forma pela qual enfatizava o ideal do partido. Grande parte do sucesso da política hitlerista devia-se à forma como eram utilizados o rádio, o cinema e as agências de notícia. Para além dos alemães residentes na Alemanha, a propaganda direcionava-se aos descendentes espalhados pelo mundo. Assim, filmes com temática eram exibidos, inclusive em Santa Cruz do Sul.

Para reforçar a ideologia; nos jornais também vinham convites ao povo para ouvirem a rádio alemã em determinados horários e acompanharem os discursos de Hitler e dos demais líderes.


O movimento recebe um golpe mortal em 1938, quando o Governo Federal emite um Decreto-Lei que proíbe atos de simpatia a partidos estrangeiros. A partir de então, é proibido usar uniformes de partidos como o Nazi. Após esse período não se vê mais nenhuma repercussão da célula em Santa Cruz do Sul. Apenas em 1941 se apreende algum material, na época em que o Brasil também entra na guerra contra a Alemanha. 

Após o término da II Guerra Mundial e com o fim do Terceiro Reich, a campanha nazista passou a ser severamente proibida no mundo inteiro, e em Santa Cruz não foi diferente. A onda "antinazista" tomou conta da cidade e até mesmo a loja de cristais do primo de Becker foi apedrejada por cidadãos santa-cruzenses.


O fim do Nacional-Socialismo no Brasil




O governo do Estado Novo promoveu a integração forçada dos alemães e de seus descendentes que viviam em colônias isoladas no sul do Brasil e também em todo o país, expulsando todos os "suspeitos" (quando na verdade entenda-se por qualquer um de sangue alemão) e aprisionando outros, após a saída neutralidade do Brasil e alinhamento com os Norte-americanos. Em muitas ocasiões agiu com brutalidade contra imigrantes humildes que não mantinham quaisquer relações com a Alemanha nazista, o fascismo italiano ou o imperialismo japonês. Muitos outros, indignados com a mudança de lado do Brasil, regressaram a Alemanha. principalmente jovens. Esse foi caso de Egon Albrecht.

Em 1940, durante uma visita a Blumenau, cidade de colonização alemã no estado de Santa Catarina, Vargas declarou: "O Brasil não é inglês nem alemão. É um país soberano, que faz respeitar as suas leis e defende os seus interesses. O Brasil é brasileiro. (...) Porém, ser brasileiro, não é somente respeitar as leis do Brasil e acatar as autoridades. Ser brasileiro é amar o Brasil. É possuir o sentimento que permite dizer: o Brasil nos deu pão; nós lhe daremos o sangue".


Os imigrantes japoneses e italianos também foram perseguidos e forçados a se "abrasileirar". Campos de concentração foram criados em quase todo país para "abrigar" e deter essas populações sobre regime de inimigos de guerra. Escolas, hospitais, salões, grêmios, templos (igrejas), foram destruídos e perseguidos no Estado Novo e quem mais sofreu essa intente foi a população comum dos colonos não só de alemães, mas de japoneses e italianos. A perseguição da mídia exaltou uma verdadeira guerra civil contra essas populações tanto no interior quanto nas cidades. Foram tempos difíceis. (Foto: mapa indicando os campos de concentração criados para imigrantes e suspeitos do Estado Novo espalhados pelo país no ano de 1942 a 1945).



Campos de concentração criados para imigrantes alemães, italianos e japoneses ou simpatizantes ao Eixo no Brasil. 

A partir da declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo, em 1942, o governo brasileiro criou uma série de campos de concentração para alemães, italianos e japoneses suspeitos de atividades antibrasileiras e ainda de prisioneiros feitos entre tripulantes de embarcações alemãs capturadas ou avariadas nas costas brasileiras. Em número de doze, os campos oficiais eram Estrela (RS), Florianópolis (SC), Curitiba (PR), Guaratinguetá (SP), Pindamonhangaba (SP), Bauru (SP), Pirassununga (SP), Ribeirão Preto (SP), Pouso Alegre (MG), Niterói (RJ), Igarassu (PE) e Tomé-Açu (PA).

Houveram muitas torturas, muitos membros conseguiram fugir para a Alemanha, ou Argentina e outros países aonde ainda conseguiam achar esconderijo. A polícia política fez uma completa varredura de desarticulação do Partido e suas células desde o Nordeste até o Sul, o que seria chamado hoje de "força tarefa".

Porém, Após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, muitos condenados como criminosos de guerra fugiram para o Brasil e/ou América do Sul e se esconderam entre as comunidades teuto-brasileiras. O caso mais famoso foi do médico condecorado, Josef Mengele. 

A chamada "Tropicalização"

Mesmo o Nacional-Socialismo foi passível de "tropicalização" quando abaixo do Equador. Essa tropicalização ocorreu de acordo com as nuances que a realidade brasileira impôs. Assim foi possível aos alemães e descendentes ao mesmo tempo comemorar o aniversário de Hitler e uma Festa de São João, tomar cerveja alemã e comer canjica. Há quatro variáveis que demonstram a "tropicalização do nazismo" no Brasil: o racismo tropical, ou seja, além dos judeus, houve divergência contra outros grupos, como os negros e mestiços, embates dos quais as populações alemãs estavam mais sujeitas nas cidades, que costumam insistir numa forma cosmopolita de convivência e que estavam mais em contato com o partido; a possibilidade de casamentos interétnicos e certa resistência da população local ao germanismo, já que até o diretor da célula paulista, Roland Braun, era casado com uma brasileira e muitos alemães diziam se “sentir em casa” na Gastland nacional; a presença do integralismo que distorceu a lógica do modelo; e a mistura de hábitos, já que, ao contrário do preconizado, não houve a formação de guetos teutônicos, mas uma interação com a sociedade local, em que os alemães absorviam hábitos e costumes. 

Perseguição e o Brasil na guerra: o fim de uma era

A polícia política fechou as escolas de imigrantes, queimou e confiscou seus objetos, perseguiu a todos e extinguiu qualquer tipo de expressão no país do tipo. 

A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial deu início a uma onda de violência contra imigrantes germânicos por todo o país.

Os aliados, insuflando um suposto ataque a 6 navios na costa brasileira em 18 de agosto de 1942, deu justificativa suficiente para isso (tal como a mesma desculpa da Primeira Guerra, cerca de 30 anos antes). A população saiu às ruas e destruiu estabelecimentos que tinham alguma ligação com os países considerados inimigos, como a Alemanha. No Rio Grande do Sul, casas, lojas e igrejas foram os principais alvos da revolta.

Os imigrantes alemães foram perseguidos e muitos acabaram sendo torturados. Famílias inteiras precisaram fugir e se refugiar em comunidades próprias, conhecidas como colônias e que até hoje mantêm a cultura germânica. A língua alemã e os cultos luteranos foram proibidos. A torre de uma igreja em Cerrito, que na época pertencia a Pelotas, na Região Sul do estado, foi derrubara com dinamites. Tudo isso foi propagado pela polícia do Estado Novo, instaurado em 1937.

Em Pelotas, o clima de medo se espalhou pela cidade. Muitas famílias deixaram suas casas, que foram invadidas. Os moradores pegaram poucos alimentos, alguns cobertores e fugiram para o mato. Era inverno, fazia frio, e algumas pessoas permaneceram escondidas em matagais por até duas semanas.

Os assentamentos construídos pelos imigrantes alemães perseguidos transformaram-se em colônias penitenciárias. Qualquer descendente que quisesse se deslocar para outro local precisava comparecer na delegacia e pegar um salvo-conduto. "O direito de ir e vir dessas pessoas foram confinados e aprisionados pela polícia. Houve uma criminalização dos alemães", comenta José Plínio Fachel, historiador autor de uma tese de doutorado sobre a época.

Depois da guerra, o governo brasileiro reconheceu e indenizou algumas famílias, porém nada substitui a proibição de uma cultura.

Retorno da F.E.B ao Brasil. Desfile na então capital, Rio de Janeiro

As forças brasileiras, ao retornarem (FEB/FAB) marcaram também o fim do governo  nacionalistas de Vargas em 1945, após ajudarem a derrubar seus maiores aliados na Europa. O mesmo governo que teve que derrubar também a AIB em seu decurso. Abria-se então a luta pelo poder no Brasil que culminaria na resistência do governo de Vargas anti a imperialização no país mas que logo cairia sobre a tutela governamental norte-americana com o governo militar que procurava a escanção desde 1946.

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