terça-feira, 5 de agosto de 2014

Anti-sionismo não é anti-semitismo



Por: Claudio Daniel


A ofensiva israelense na Faixa de Gaza já matou mais de 1.700 palestinos, em sua maioria civis, em um mês de conflito, além de provocar o deslocamento de 520 mil pessoas, que abandonaram seus lares na tentativa de escapar ao massacre. A operação militar, desencadeada a pretexto do sequestro e assassinato de três jovens israelenses – ação condenada pela Autoridade Nacional Palestina e até agora não esclarecida –, tem provocado diferentes reações na comunidade judaica em São Paulo. Enquanto intelectuais judeus como o diretor e autor teatral Gerald Thomas e o jornalista Max Altman condenaram a agressão, entidades como a Federação Israelita do Estado de São Paulo e a Confederação Israelita do Brasil apoiam publicamente a ofensiva israelense. 

Em recente artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, o presidente da Conib, Claudio Lottenberg, procura descaracterizar a crítica que se faz ao sionismo, inclusive no meio intelectual israelense – por exemplo, as pesquisas realizadas por Shlomo Sand, professor de história na Universidade de Tel Aviv e autor de livros como A invenção do povo judeu e A invenção da terra de Israel –, afirmando que a recusa do sionismo, na verdade, seria uma nova versão do antissemitismo. Nada está mais longe da verdade. O sionismo nunca foi consenso entre os judeus europeus até o final da II Guerra Mundial, sendo considerado herético pelos rabinos tradicionalistas, fiéis à interpretação da Torá segundo a qual os judeus só poderiam voltar à Terra Santa por ocasião do advento do Messias. 

Os judeus assimilados nos países ocidentais, por sua vez, não se interessavam pelo projeto de abandono dos países onde viviam há incontáveis gerações para a construção artificial de um “lar nacional judeu” na distante Palestina, onde, em 1914, viviam apenas 85 mil judeus, ao lado de 580 mil árabes palestinos (85% muçulmanos, 15% cristãos). Apenas no final da II Guerra Mundial a imigração de judeus europeus para a Palestina se tornou massiva, não apenas pelo impacto emocional causado pelo Holocausto, mas também pelo acordo firmado entre o movimento sionista e os Estados Unidos para restringir a imigração judaica para este país. Desde então, o sionismo se fortaleceu como ideologia nacionalista e racista, de viés messiânico (como muitas outras surgidas na Europa entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX), e sobretudo como prática política segregacionista, responsável por uma verdadeira “limpeza étnica” realizada na Palestina logo após a fundação do Estado de Israel, em 1948, que levou à destruição de mais de 400 aldeias árabes e condenou ao exílio 750 mil palestinos, proibidos de voltarem a suas terras e lares. O sionismo, ao estabelecer um Estado Nacional Judeu, baseado em duvidosos critérios biológicos e de profissão religiosa, restringiu os direitos de cidadania dos palestinos que permaneceram em Israel – os chamados “árabes israelenses” – reduzidos a cidadãos de segunda classe, que não gozam dos mesmos direitos políticos e jurídicos reservados aos cidadãos judeus – em sua imensa maioria, europeus ou filhos de europeus cujo único vínculo com o Oriente Médio é religioso e cultural. Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, Israel anexou territórios árabes como a Faixa de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental e deu início à construção de centenas de assentamentos judaicos nessas localidades, na tentativa de inviabilizar a formação de um estado nacional palestino e, se possível, apagar a presença histórica árabe-palestina na região, demolindo casas, monumentos e rebatizando aldeias e vilas com nomes hebraicos, num verdadeiro genocídio cultural, com poucos paralelos registrados na história. 

Para justificar sua incessante violência, o Estado de Israel utiliza, de forma propagandística, o fantasma do Holocausto: qualquer crítica aos crimes praticados pelo regime sionista seria o mesmo que o antissemitismo alemão dos anos 1930-1940. A estratégia adotada pelos sionistas tem a força de verdadeira ameaça, dirigida a governos, instituições ou personalidades que ousem contestar o uso de armas proibidas pela legislação internacional por parte de Israel – como as bombas de fósforo branco, de fragmentação e de urânio empobrecido – contra populações civis na Palestina ou no Líbano, entre muitas outras ações de violação dos direitos humanos e da Convenção de Genebra, que, se praticados por qualquer outro país do mundo, seriam chamados de crimes de guerra. Israel adotou uma arrogante presunção de que todos os seus atos seriam revestidos de uma moralidade indiscutível, por causa do sofrimento de milhões de judeus durante o nazismo, e se permite tudo, inclusive repetir as mesmas atrocidades, diante do silêncio e cumplicidade da mídia e da chamada “comunidade internacional”, em particular Estados Unidos e Europa. Anti-sionismo não é anti-semitismo, pelo mesmo motivo que ser antinazista não significa ser anti-alemão. A debilidade intelectual do argumento é tamanha que causa surpresa ver entidades supostamente representativas da comunidade judaica como a Conib utilizarem, publicamente, este chavão insustentável. Ser contra o racismo, o militarismo e o expansionismo de Israel não é ser “antissemita”, caso contrário, teríamos de incluir nessa infamante categoria nomes como Albert Einstein, Hannah Arendt, Noam Chomsky, Shlomo Sand, Norman Finkelstein e numerosos outros intelectuais que representam a melhor tradição humanista que os judeus legaram à posteridade.

Fonte: Oriente Mídia

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